quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Desregramento da nossa escala de valores - Crónica 22

A National Geographic, no seu filme ‘6 graus que podem mudar o mundo’ e na sua revista (edição ‘España’ de Agosto e Dezembro de 2009), lança novos dados preocupantes para o futuro do mundo, que não podem deixar ninguém indiferente: em 40 anos os glaciares dos Himalaias podem desaparecer; em 50 anos o desgêlo da Groenlândia será irreversivel; a frente do glaciar Cook (na Georgia do Sul) tem agora um metro de altura, por isso foi invadida por pinguins - antes tinha 20 metros de altura; nos proximos 30 anos os incêndios na Austrália serão ainda piores e a sucessão entre secas e inundações pode tornar-se normal; actualmente o Reino Unido já tem mais de 480 vinhedos e também olivais, porque o clima das ilhas está mais ameno;
A pegada de carbono (CO2) dos hamburgers com queijo: 200M de m3 de gases de estufa (inclui o metano produzido pelo gado); 35% dos cereais do mundo são usados para alimentar gado e não pessoas (apesar da fome em vários países); em 2008, mais de 3,5 milhões de hectares de floresta foram danificados ou destruidos (em parte para criar gado ou produzir cereais); 80% das emissões poluidoras são de países desenvolvidos;
Se a temperatura da Terra subir 2 graus: os glaciares da Groenlândia desaparecem; os ursos polares podem extinguir-se; as ilhas Tuvalu ficam submersas; um terço da floresta Amazónica pode desaparecer até ao fim do século;
Face a dados como estes, Amin Maalouf, escreve em “Um mundo sem regras” (2009): A relação do sistema “com o dinheiro e com a maneira de o ganhar tornou-se obscena. Que não se tenha vergonha de enriquecer, compreendo. Que não se tenha vergonha de saborear os frutos da prosperidade, também aceito; a nossa época propõe-nos tantas coisas belas e boas que seria um insulto à vida recusar desfrutar dela. Mas que o dinheiro seja completamente desligado de toda a produção, de todo o esforço físico e intelectual, de toda a actividade socialmente útil? Que as nossas praças bolsistas se transformem em gigantescos casinos onde a sorte de centenas de milhões de pessoas, ricas ou pobres, seja decidida num lance de dados? Que as nossas instituições financeiras mais veneráveis acabem por se comportar como delinquentes embriagados? Que as economias de toda uma vida de labor podem ser aniquiladas ou multiplicadas por trinta em alguns segundos e segundo processos esotéricos que os próprios banqueiros já não compreendem? Isso é uma perturbação grave (…) Será necessário acrescentar com todas as letras que este desregramento financeiro é também, e talvez acima de tudo, o sintoma de um desregramento na nossa escala de valores? (…) Fazer do dinheiro o critério de toda a respeitabilidade, a base de todo o poder, de toda a hierarquia, acaba por esfarrapar o tecido social.”
Como pude comprovar nas viagens a glaciares em perigo (e escrevi em http://icecare.blogspot.com), neste momento, os efeitos do aquecimento global são visiveis em permanência nas latitudes mais elevadas (perto dos pólos) e a grandes altitudes (digamos, acima dos 2.500 metros). Em latitudes mais baixas (perto dos trópicos) aqueles efeitos assumem a forma de fenómenos pontuais e violentos, mas a sua frequência e intensidade está a aumentar assustadoramente! Falo de furacões, tempestades de areia e neve, cheias, secas … Parte desta responsabilidade é de todos nós!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Responsabilidade e bom senso … - Crónica 21

(continuação da anterior)
Quer para com as Pessoas quer para com o Planeta (afinal não vai dar no mesmo?!), chegou a hora da responsabilidade. A próxima cimeira da terra (Dez. em Copenhaga) está aí, a clamar atenção e a dar-nos mais uma chance.
2010 será o ano a Biodiversidade e a União Internacional para a Conservação da Natureza (www.iucn.org) estima que 1 em cada 3 animais (são 18.000 espécies!!!) estão em vias de extinção – não por causas naturais mas pela afectação do seu habitat. O sapo anão da Tanzânia é apenas um exemplo. A causa ? O Homem (construiu uma barragem sobre o único habitat da espécie). Outras afecções graves da Terra: o topo do Kilimanjaro perdeu até 2007, 85% do gêlo que tinha em 1912 (segundo a Times) … O projecto Ice Care (www.icecare.org) está a divulgar o problema, e a viagem ao cume da mais alta montanha de África coincide com o inicio daquela cimeira.
Fernando Nobre, fundador da AMI, num grito de revolta, escreveu (em ‘Viagens contra a indiferença’): “Estamos num mundo em que se quer fazer do capitalismo feroz uma religião e da miséria e da pobreza pecados mortais. Estou cansado: recuso-me a tal desvario” e “Os yuppies das bolsas, da economia especulativa e das politicas irresponsáveis têm de ser tratados: subscrevo-hes doses maciças de bom-senso e de humanidade. Deixem-se de planar, meus senhores! Voltem à Terra que é tão bela e merece viver!! Acordem por favor! Se assim não for, voltaremos às instabilidades e às guerras”. É hora de intervir e de ser muito mais responsável.
Ver video da Greenpeace: http://www.greenpeace.org/portugal/videos/o-fundo-da-linha?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=roadtour4b

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Hora de responsabilidade … - Crónica 20

Nos dias conturbados em que vivemos, com os sucessivos escândalos económicos protagonizados pelos nossos politicos (alguns ex-), vem a propósito um trecho do meu próximo livro (já terminado e a aguardar publicação – http://aventuraaomaximo.blogspot.com/). Não para apaziguar a revolta que sentimos, mas para mostrar que há muito que os desportistas estão num domínio muito superior ao dos politicos, no plano ético e moral. (foto: glaciar Aletsch em agonia)
Em ‘Os novos Exploradores e a Aventura dos Sentidos’, escrevi: «O novelista inglês, Philip Kerr, autor do livro ‘The Book of Lies’, uma antologia de contos de falsidades, explica como as pessoas terão desenvolvido uma atitude de resignação face aos escândalos sem fim, que se verificam no mundo da politica e dos negócios (dos casos de inside trading aos de financiamento de campanhas partidárias, etc). Mas aceitar isso num desportista ou aventureiro, é outra coisa: “o desporto parece ser muito mais importante para as pessoas do que a politica (…) O desporto cruza as fronteiras étnicas e partidárias. Ocupa um dominio superior, e torna-se muito mais decepcionante quando figuras do desporto revelam ser, afinal, como toda a gente”. De acordo com esta análise parece estar o sociólogo australiano, John Barnes, autor do livro ‘A Pack of Lies’ - um estudo da história e sociologia da mentira. Diz ele que “o desporto implica um contraste com as considerações mundanas de trabalhar para ganhar a vida (…) Ser um desportista significa ser altruista.» …
Um amigo (que afinal eu não conheço assim tão bem) queixava-se que para fazer 5 milhões (possivel em Inglaterra mas não em Portigal, dizia) “não basta roubar, é preciso roubar muito” …. Questiono eu: mas porque é que se criou esta mania de que é preciso ter milhões para viver bem ?!? Lembro uma citação em ‘Viagens na minha Terra’ de Almeida Garrett (crónica de 19-07.09): “E eu pergunto … se já calcularam o número de indíviduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, … para produzir um rico. (…) cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.”
Fernando Nobre, fundador da AMI, conta no seu livro ‘Viagens contra a indiferença’, a longa caminhada de mais de 25 anos da sua “saga humanitária” para combater o que considera “as duas piores doenças da Humanidade: a Indiferença e a Intolerância”. Ora, nesta altura, parece-me que ‘responsabilidade’, ou neste caso a falta dela, é outra das ‘doenças’ que mais afecta a nossa sociedade e caberia neste lote. Falta-nos ‘responsabilidade’ para lidar com os problemas das pessoas, os problemas do país e os do planeta. Neste momento discute-se o futuro do planeta (na preparação da cimeira de Copenhaga) e parece que não há sensibilidade nem coragem politica para tomar as medidas necessárias. Creio que só chega a ver este problema com clareza alguém que passe por uma destas combinações (dose de ironia): inteligência e sensibilidade; muito dinheiro e aborrecimento; educação (académica) e séria degradação das condições económicas (foi o meu caso). Pede-se responsabilidade e bom senso …

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Os reis da democracia … - Crónica 19

As professoras da escola contavam-nos como rei e vassalos, senhores das terras, cobravam o ‘dízimo’ ao povo. ‘Crápulas’, pensáva-mos, e ria-mos à sucapa, com ironia. Hoje aceitamos como natural a cobrança de impostos, mas os ‘novos reis’ já não cobram apenas 10% … Chegámos aos 21% (IVA), fora o IRS e mais não-sei-quanto de impostos indirectos !!! Tudo para alimentar o apetite devorador de um Estado completamente mal gerido (podemos falar em gestão, quando a maioria dos decisores, politicos e autarcas, nem sequer são gestores de formação ?!). Uma das primeiras regras a apreender num curso de gestão é: só existe necessidade de ‘gerir’ quando os recursos existentes são limitados. Ora, parece que no caso de algumas autarquias, os seus dirigentes pensam que os recursos são ilimitados … (as autarquias, supostamente, não se podem endividar, mas em Portugal fazem-no uma em cada seis)

A maioria continua a acreditar na falácia mais bem preservada dos últimos tempos – a de que “a democracia não é um sistema perfeito, mas é o melhor que temos”. É que agora, em vez de o poder se concentrar numa pessoa só, ele concentra-se em várias. Cada uma delas constitui o seu feudo, impenetrável, com a sua teia de compadrios e favores. E vai ‘chupando’ o que pode … Temos assim vários ‘reis’, em vez de um só. Chamam-lhe ‘democracia’, mas na verdade vivemos numa espécie de … ‘poli-monarquia’! Estas pessoas apegam-se ao lugar, que consideram seu, formando ‘clubes herméticos’ de dificil acesso. Na verdade, deveria haver uma rotação obrigatória de cargos de poder. Sem deixar prolongar mandatos nem, sobretudo, acumular cargos. Sem deixar que uns estendam as suas redes de poder e se acomodem (veja-se a vergonha do governo da Madeira!!! E da Câmara de Oeiras, cujo Presidente nunca explicou as suas contas na Suiça). A melhor forma de democracia alcança-se partilhando mais os cargos importantes: que sejam mais a ter a responsabilidade e o aparente ‘benefício’ do posto que têm.

Ainda há quem defenda (nas alas liberais) que para termos bons politicos, temos que lhes pagar bem … Visão economicista esta, que pretende demonstrar que o politico é bom se receber muito dinheiro, mas esquece que uma visão humanista demonstraria que aquele que faz depender a sua bondade da quantidade de dinheiro a receber, então não pode ser boa pessoa. Isso tem outro nome …

É claro que podemos (re)inventar sistemas melhores. Que fossem beber e misturem um pouco das várias correntes politicas. Até o comunismo tem os seu pontos positivos, se aplicados a certos aspectos da sociedade. O primado do capital sobre tudo o resto é que já provou ser profundamente injusto e irresponsável. Uma maior partilha de cargos, por exemplo, reduziria o custo de oportunidade geral: é que por cada cargo acumulado e ocupado por mais tempo, são mais as pessoas que deixam de poder aspirar a essa posição (na politica, como nos negócios) - visão economicista, com lado humanista !

sábado, 1 de agosto de 2009

Coisas à medida do Homem - Crónica 18




Diz a anedota que se deves mil ao banco estás tramado, mas se deves um milhão, então é o banco que está tramado …; a empresa seguradora americana AIG era ‘demasiado grande para deixar cair’; a barragem das 3 Gargantas na China é tão grande que em caso de ruptura o desastre consequente pode provocar até 75 milhões de vítimas (mais em http://aventuraaomaximo.blogspot.com/, Abril 09). Entretanto, o economista George Soros disse (em Junho) que a China “irá liderar a recuperação económica …”. Mas o crescimento anual de dois digitos da China pode bem vir a provocar o próximo ‘crash’ global, pois não é possivel de manter indefinidamente. A China corre o risco de se tornar na vitima do seu próprio crescimento descontrolado, e com ela arrastar toda a economia mundial !!! O mundo está pejado de exemplos de coisas que ultrapassam as nossas medidas e capacidade de domínio. A ambição desmesurada do Homem é, frequentemente, a causa da sua própria ruína.

domingo, 19 de julho de 2009

Quixote, felicidade e poluição ... - Crónica 17

Tudo sobre viagens procuro e quero devorar. De tanto querer explorar, com Almeida Garrett fui dar … Ele teve algo de viajante, mas ‘Viagens na minha Terra’ tem pouco de viagem, no sentido da ‘exploração’ que procuro. O passeio à Azambuja, Cartaxo e Santarém, parece apenas um pretexto para a sua prosa romântica, as suas divagações sobre literatura, politica e sociedade. No entanto, nesse livro, que tanto desdém nos suscitou nos tempos de escola, por desadequado àquelas idades (ainda hoje não serve para leituras à pressa) – o livro passou-me quase despercebido (fora a história da Joaninha)-, encontrei agora algumas pérolas que parecem ainda actuais. Garrett ironizava: “… macademizai estradas; fazei caminhos de ferro; construí passarolas de Ícaro, para andar, a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa, como tendes feito esta que Deus nos deu (…) reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal; comprai, vendei, agiotai. – No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas de dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indíviduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. (…) cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis. Logo, a nação mais feliz não é a mais rica. Logo, o princípio utilitário é a mamona da injustiça e da reprovação …”

Num ‘Trecho do novo livro Os Novos Exploradores e a Aventura dos Sentidos’, que escrevi no blog http://aventuraaomaximo.blogspot.com/, de Abril 09, dizia que «segundo o ‘Índice Planeta Feliz’ de 2006, da Fundação Nova Economia, com toda a relatividade de uma medição desta natureza, os países ricos do norte da América e Europa apresentam, sem surpresas, os mais altos índices de felicidade (“Muito feliz”). Dinamarca e Suiça encabeçam a lista. Estudos demonstraram uma relação directa entre o nível de educação de uma população e a sua felicidade. Poderiamos intuir aqui, também, uma relação entre riqueza material e felicidade …. No entanto, alguns estados insulares (ilhas das Caraíbas, Malta, Seychelles, ilhas do Pacífico) surgem também entre os 25 primeiros (…) Portugal, de acordo com o Índice referido, surge ‘estranhamente’ com uma população apenas “Satisfeita”, ao lado de países africanos e da Europa de Leste/ex-União Soviética.»
Dada esta aparente contradição, posso pelo menos concluir da relação directa entre educação e felicidade, mas também entre riqueza e educação.
Por sua vez, o novo paradigma do século para a humanidade – “melhorar a qualidade de vida sem destruir o meio ambiente nessa tentativa” -, coloca a tónica nos niveis de poluição. Dessa forma, e como concluimos em recente conversa de amigos, também existe uma relação directa poluição-consumo-riqueza. E assim se chega à triste conclusão de que existe uma relação directa entre felicidade e poluição (felicidade-educação-riqueza-consumo-poluição), que domina e subjuga a sociedade ocidental actual !!! Garrett, por seu lado, concluia: “Mas aqui é que me parece uma incoerência inexplicável. A sociedade é materialista; e a literatura, que é a expressão da sociedade, é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista! Sancho, rei de facto; Quixote, rei de direito.” …

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A toda a velocidade ... - Crónica 16



Mas onde é que vai esta gente toda ?!?


Veja onde eles vão, já a seguir …

Nas Crónicas do Zézinho de 20.01.09, 29.01.09 e 05.03.09, contei sobre algumas delicias da Suiça: do carnaval, das montanhas, do ski, das loucas descidas em trenó …
Agora, descubram uma nova vertente de descida em rio … a nadar ou mesmo com um copo na mão! Passa-se no rio Aare que atravessa a cidade de Berna. De qualquer ponto alto da cidade é possivel observar ao fundo, para sul, uma barreira branca, formada pelas altas montanhas do Jungfrau e Eiger, que se erguem a 4.000 metros de alitude. Pois na primavera e verão, o desgêlo dessas montanhas alimenta a nascente do rio Aare (o Oberaarsee, alimentado pelos glaciares) e lança enormes quantidades de água nos lagos Thuner e Brienzer, que por sua vez dão volume ao Aare, a juzante. O Aare entra pelo Bieler See e flecte o seu trajecto para nordeste, continuando a receber volume de vários afluentes na sua margem direita. Acaba por desaguar no rio Reno, entre Koblenz (do latim ‘confluentia’) e Waldshut (cantão de Aargau), ao fim de 295 km. Mas, no seu percurso de cerca de 50 km entre Thun e Berna, ele corre, livre de obstáculos, a esta velocidade incrívelmente inofensiva (mas não isenta de perigos) …