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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A nova pobreza II - Crónica 37

(continuação da anterior)
Se é verdade que existe uma relação tão directa entre riqueza, consumo e poluição (ver crónica 17, de 19.07.09), que domina a sociedade ocidental actual, então, também a cada pessoa devia estar associada uma quota de consumo/poluição (tal como existe a nível de certos países, no caso da poluição, no caso da produção de leite ou cereais, ou no caso das capturas piscícolas), dentro da qual estaria permito ‘respirar’ a qualquer um, independentemente dos seus rendimentos. No caso dos impostos e dos preços dos serviços básicos (água, luz, habitação, etc.) é necessário criar uma ‘bolsa de ar’, um escalão mínimo dentro do qual nenhum cidadão (desempregados, reformados, trabalhadores temporários, os que auferem salários mínimos) tenha que agonizar para se manter à tona de água. Para lá daquela quota, a cobrança de bens e serviços (sobretudo se resultam poluentes) far-se-ia numa proporcionalidade crescente. Quem mais consome/polui, mais paga! O problema é que isto vai contra toda a lógica capitalista de maximização do consumo: quanto mais consomes mais barato te sai o preço unitário. A própria UE apoiava, através da sua politica agrícola comum, as explorações agrícolas em função da sua produtividade, beneficiando os maiores (porque mais facilmente diluem os custos unitários). Ora, se já são grandes e produtivas para que é que necessitam de apoios?! “… a indústria alimentar à escala global está estruturada para favorecer uma produção muito abundante e a baixo custo, e os fabricantes de alimentos, as empresas de transporte de longa distância, os gigantes do fast food, as empresas publicitárias, os supermercados e os produtores industriais (os defensores do status) têm interesse em que as coisas continuem como estão. Na maior parte dos países, os sistemas de subsídios, as regulamentações e as fileiras de abastecimento estão contra o produtor que se rege pelas normas do movimento Slow (…) os métodos agrícolas actuais são claramente insustentáveis. A agricultura industrial destrói o meio ambiente. Hoje, alguns especialistas crêem que a melhor maneira de alimentar o mundo é voltar à agricultura e criação de gado mista de pequena escala, que permite um equilíbrio, respeitoso com o meio ambiente, entre colheitas e gado. Em 2003, a UE por fim acordou reformar a sua politica agrícola comum para recompensar os agricultores mais pela qualidade que pela quantidade da sua produção, assim como pela salvaguarda do meio ambiente” (por Carl Honoré em ‘Elogio de la lentitud’).
A imprensa espanhola surpreendia-se com a alta taxa da população do país, a mais elevada da Europa, que investe na compra de casa própria! Mas o que é que esperavam, quando o valor mensal de um arrendamento é idêntico ao da hipoteca a pagar ao banco?! Facilmente se encontrarão estatísticas que mostram que o peso dos gastos com a habitação no orçamento das famílias, que passou de uns 15% há umas décadas para próximo dos 50% actualmente. As casas modernas têm rendas incomportáveis para a maioria (paralelamente, observo o aumento do número de pessoas que passou a viver em auto-caravanas). A habitação é um bem essencial e, como tal, para que os cada vez mais aflitos possam ter acesso a ela, este sector devia estar sujeito a uma regulação bastante mais estrita.

O consagrado escritor Amin Maalouf disse que a geração jovem de hoje será provavelmente a primeira da história que vai viver em piores condições que a anterior. Agora digam lá, qual é a ‘lógica’ mais lógica?! A máxima capitalista que beneficia poucos e grandes, ou uma lógica mais social e justa que tente não excluir e não deixar ninguém com a corda na garganta!?
Designado por ‘último paraíso terrestre’, o caso do Butão é exemplar: “o governo deste ‘país das plantas medicinais’ desenvolveu e aplicou o conceito inovador de ‘Felicidade Interna Bruta’, por considerar que o bem-estar emocional da população é mais importante do que o desenvolvimento material…”, escrevi na crónica 33 (de 14.09.10). A China, por sua vez, que não tem sido nenhum exemplo, anunciou recentemente que o objectivo das novas políticas do governo para os próximos 5 anos é o de reduzir a diferença entre ricos e pobres. Vamos lá a ver se o grande dragão asiático dá uma lição ao Ocidente.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Desregramento da nossa escala de valores - Crónica 22

A National Geographic, no seu filme ‘6 graus que podem mudar o mundo’ e na sua revista (edição ‘España’ de Agosto e Dezembro de 2009), lança novos dados preocupantes para o futuro do mundo, que não podem deixar ninguém indiferente: em 40 anos os glaciares dos Himalaias podem desaparecer; em 50 anos o desgêlo da Groenlândia será irreversivel; a frente do glaciar Cook (na Georgia do Sul) tem agora um metro de altura, por isso foi invadida por pinguins - antes tinha 20 metros de altura; nos proximos 30 anos os incêndios na Austrália serão ainda piores e a sucessão entre secas e inundações pode tornar-se normal; actualmente o Reino Unido já tem mais de 480 vinhedos e também olivais, porque o clima das ilhas está mais ameno;
A pegada de carbono (CO2) dos hamburgers com queijo: 200M de m3 de gases de estufa (inclui o metano produzido pelo gado); 35% dos cereais do mundo são usados para alimentar gado e não pessoas (apesar da fome em vários países); em 2008, mais de 3,5 milhões de hectares de floresta foram danificados ou destruidos (em parte para criar gado ou produzir cereais); 80% das emissões poluidoras são de países desenvolvidos;
Se a temperatura da Terra subir 2 graus: os glaciares da Groenlândia desaparecem; os ursos polares podem extinguir-se; as ilhas Tuvalu ficam submersas; um terço da floresta Amazónica pode desaparecer até ao fim do século;
Face a dados como estes, Amin Maalouf, escreve em “Um mundo sem regras” (2009): A relação do sistema “com o dinheiro e com a maneira de o ganhar tornou-se obscena. Que não se tenha vergonha de enriquecer, compreendo. Que não se tenha vergonha de saborear os frutos da prosperidade, também aceito; a nossa época propõe-nos tantas coisas belas e boas que seria um insulto à vida recusar desfrutar dela. Mas que o dinheiro seja completamente desligado de toda a produção, de todo o esforço físico e intelectual, de toda a actividade socialmente útil? Que as nossas praças bolsistas se transformem em gigantescos casinos onde a sorte de centenas de milhões de pessoas, ricas ou pobres, seja decidida num lance de dados? Que as nossas instituições financeiras mais veneráveis acabem por se comportar como delinquentes embriagados? Que as economias de toda uma vida de labor podem ser aniquiladas ou multiplicadas por trinta em alguns segundos e segundo processos esotéricos que os próprios banqueiros já não compreendem? Isso é uma perturbação grave (…) Será necessário acrescentar com todas as letras que este desregramento financeiro é também, e talvez acima de tudo, o sintoma de um desregramento na nossa escala de valores? (…) Fazer do dinheiro o critério de toda a respeitabilidade, a base de todo o poder, de toda a hierarquia, acaba por esfarrapar o tecido social.”
Como pude comprovar nas viagens a glaciares em perigo (e escrevi em http://icecare.blogspot.com), neste momento, os efeitos do aquecimento global são visiveis em permanência nas latitudes mais elevadas (perto dos pólos) e a grandes altitudes (digamos, acima dos 2.500 metros). Em latitudes mais baixas (perto dos trópicos) aqueles efeitos assumem a forma de fenómenos pontuais e violentos, mas a sua frequência e intensidade está a aumentar assustadoramente! Falo de furacões, tempestades de areia e neve, cheias, secas … Parte desta responsabilidade é de todos nós!