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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

As Manias da Paula e as Maiores Tolices do Mundo - Crónica 48

Trecho do novo livro (sinopse e encomendas: http://www.bubok.pt/livros/4919/As-Manias-da-Paula-e-as-Maiores-Tolices-do-Mundo ):«O Grupo de Lisboa já advertira, nos anos 90, para a necessidade de impor ‘limites à competição’ (o título do livro). Geraint, convencido de que “todas as formas de competitividade derivam de sentimentos de inadequação e insegurança...”, explica (em ‘Cityboy’) como essa mesma competitividade “está a lixar este lindo planeta”. As conclusões das entrevistas de Richard Conniff (em ‘História Natural dos Ricos’), expuseram as estranhas condutas exibicionistas dos detentores de riqueza. A investigação de David Owen, identificou as discapacidades dos decisores. Os relatórios de Malcolm Gladwell (em ‘Tipping Point’) evidenciam como o mal causado por uns poucos pode infligir consequências tremendamente negativas a tantos outros (regra 80/20). Os dados apresentados por Richard Wilkinson e Kate Pickett (em ‘The spirit level’) demonstram claramente o porquê de a ‘igualdade ser melhor para todos’ (o sub-titulo do livro)...
Se nos lembrar-mos da herança das décadas de ditadura paternalista vividas em Portugal e se a todos estes dados somar-mos: a falta de ética dos políticos e o “desenfreado, e abusivo desavergonhado abocanhar do erário público”; a actual “asfixía democrática” (M.F.Leite) e a “contemporização com as ‘faltas’ das altas individualidades” (pelos cidadãos e pela Justiça); a referida sociedade “entranhada e nepótica” que serve a clientelas, e a postura impositiva do ‘eu quero, posso e mando’ que impera no sistema de Justiça (e na Administração Pública em geral), em vez da lógica de serviço ao cidadão (Marinho Pinto, TSF, 14.11.11); aos números que reflectem uma sociedade doentia com baixos níveis de ‘felicidade’, então talvez tenhamos a explicação dos desenvolvimentos que oprimem e tolhem a capacidade de participação dos cidadãos, transformando e descaracterizando o país (que apresenta uma visível falta de mobilização, de iniciativa e até de personalidade – refiro-me à expressividade de um povo reflectida, por exemplo, na alegria das suas manifestações populares, que definem a sua cultura), e o porquê de se estarem a criar as condições “que favorecem uma decadência neuronal colectiva...” (Pedro Afonso)! Isto não é mera especulação. Hoje sabemos que o stress massivo imposto a animais (em experiências com ratos e babuínos) pode afectar inclusive o tamanho de regiões cerebrais como o hipotálamo (envolvido no controle de emoções, actividade sexual, fome, sede, humor, entre outras). Nos humanos há ainda que somar que situações de stress psicológico prolongado não só afectam a sua maturidade como podem causar a sua regressão.
Agora, se quisermos averiguar as consequências da ‘injustiça’ e da ‘infelicidade’ que daqui pode resultar, podemos recorrer a Frederick Douglas (1886) que escreveu: “Onde a justiça é negada, onde a pobreza é forçada, onde a ignorância prevalece e onde qualquer classe que seja é feita para sentir que a sociedade está numa conspiração organizada para oprimir, roubar e degradá-la, nem pessoas nem propriedade estarão seguras”; ou às conclusões de Punset, para quem as pessoas reacionam de forma diversa frente à infelicidade: da “resignação com que se aceita a aniquilação da vontade individual e do pensamento próprio, até à rebelião frente à injustiça”. Em qualquer dos casos, “o preço é muito alto”, seja se se opta por preservar a própria vida, seja se esta é posta em risco para “conseguir quotas de liberdade e de justiça mais amplas”. Também Geraint alega que “este sistema está a destruir o mundo” e as pessoas, e que ao consumir-mos mais e mais e ao criar “maiores disparidades na riqueza” isso “só pode terminar em derramamento de sangue ou em desastre ambiental”.
Insegurança, resignação, aniquilação, rebelião, desastre... , são alternativas demasiado ‘pobres’ no século XIX, não te parece? Isto é muito preocupante!»

Foto: Cheese rolling no Reino Unido (os concursos são um dos temas abordados)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A ilusória felicidade dos ricos - Crónica 33

Especialistas da Universidade de Princeton determinaram agora que um nível de vencimentos anual igual a 58 mil euros é aquele que permite a ‘felicidade’: segundo os ‘doutores’, um valor superior traz-nos problemas e gera stress; e valores inferiores não chegam para satisfazer certos ‘desejos’ (in Punto Rádio, 09.09.10). Segundo o ‘Índice Planeta Feliz’ de 2006 (da Fundação Nova Economia), os países ricos do norte da América e Europa apresentam os mais altos índices de felicidade -“Muito feliz”. Dinamarca e Suiça encabeçam a lista. Estudos demonstraram uma relação directa entre o nível de educação de uma população e a sua felicidade. Poderíamos intuir aqui, também, uma relação entre riqueza material e felicidade. No entanto, alguns estados insulares (ilhas das Caraíbas, Malta, Seychelles, ilhas do Pacífico), além dos Emiratos Árabes, a Nova Zelândia, a Malásia e o Butão, nem todos denominados de ‘ricos’, surgem também entre os 25 primeiros. A China apresenta um rating de “Feliz”, numa fase de extremo frenesim económico (e maior de degradação ambiental), contraditório com a tradicional prática do Tai Chi, com os ditames confucionistas e as filosofias budistas, e com o velho provérbio: “Se queres um ano de prosperidade, planta trigo. Se queres dez anos de prosperidade, planta árvores. Se queres cem anos de prosperidade, educa as pessoas”. Portugal, de acordo com o Índice referido, surge com uma população apenas “Satisfeita”, ao lado de países africanos e da Europa de Leste/ex União Soviética. Neste cantinho da Europa talvez uma minoria de uns 5% chegue a alcançar o almejado valor anual (58 mil euros), mas não será certo que os outros 95% da população activa sejam infelizes. Exemplar, é o caso do Butão: designado por ‘último paraíso terrestre’, o governo deste ‘país das plantas medicinais’ (tem 600 espécies identificadas), “desenvolveu e aplicou o conceito inovador de ‘Felicidade Interna Bruta’, por considerar que o bem-estar emocional da população é mais importante do que o desenvolvimento material… Um indicador que bem poderia servir de exemplo às sociedades ditas ‘avançadas’ do ocidente. Em 2004, o Butão tornou-se no primeiro país a banir o fumo e a venda de tabaco; a sua capital, Thimphu, é a única do mundo sem semáforos” (do meu livro ‘Os novos exploradores e a aventura dos sentidos’). O divulgador científico Eduardo Punset (em ‘Porque somos como somos’), aponta uma relação clara entre ‘desenvolvimento’ e ‘suicídio’ (que é como quem diz ‘infelicidade’): “Dizem as estatísticas que o número de suicídios entre adolescentes nas sociedades ricas triplicou na última década”. Segundo Acarin (um especialista em neurologia citado), a vida era muito mais dura no Paleolítico, do ponto de vista afectivo, «passava-se fome, a sobrevivência era difícil, fazia frio, nem sempre havia fogo… mas não havia suicídios». Os primeiros grandes antropólogos dos finais do séc. XIX corroboraram esta ideia quando «estudaram tribos que viviam como no Paleolítico e constataram que nelas o suicídio era uma prática inexistente». “Ao contrário, quanto mais ‘desenvolvida’ é uma sociedade do ponto de vista tecnológico, maior é a taxa de suicídios de adultos ou de adolescentes e maiores são também os problemas pseudo-suicídas, como a adição às drogas ou ao álcool, e as condutas autodestrutivas”. Punset mostra como a felicidade é a ausência de medo, sendo a segurança uma condição para tal. Albert Schweitzer disse, com dose de humor: “A felicidade não é mais que a soma de uma boa saúde e uma má memória”. Para o Dalai Lama, o que mais o surpreende na Humanidade são… os homens, “porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido”. Nos dias de hoje, felicidade para um paquistanês pode ser um prato de arroz ao final do dia; e para um religioso, um anacoreta, um budista meditativo, cujos estados de alma mal compreendemos, aquela mesma felicidade está totalmente desligada dos ganhos materiais. Recordo com saudade uma frase da minha avó: “Rico não é o que mais tem, senão o que menos necessita”. Ai, estes americanos!!!

domingo, 19 de julho de 2009

Quixote, felicidade e poluição ... - Crónica 17

Tudo sobre viagens procuro e quero devorar. De tanto querer explorar, com Almeida Garrett fui dar … Ele teve algo de viajante, mas ‘Viagens na minha Terra’ tem pouco de viagem, no sentido da ‘exploração’ que procuro. O passeio à Azambuja, Cartaxo e Santarém, parece apenas um pretexto para a sua prosa romântica, as suas divagações sobre literatura, politica e sociedade. No entanto, nesse livro, que tanto desdém nos suscitou nos tempos de escola, por desadequado àquelas idades (ainda hoje não serve para leituras à pressa) – o livro passou-me quase despercebido (fora a história da Joaninha)-, encontrei agora algumas pérolas que parecem ainda actuais. Garrett ironizava: “… macademizai estradas; fazei caminhos de ferro; construí passarolas de Ícaro, para andar, a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa, como tendes feito esta que Deus nos deu (…) reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal; comprai, vendei, agiotai. – No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas de dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indíviduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. (…) cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis. Logo, a nação mais feliz não é a mais rica. Logo, o princípio utilitário é a mamona da injustiça e da reprovação …”

Num ‘Trecho do novo livro Os Novos Exploradores e a Aventura dos Sentidos’, que escrevi no blog http://aventuraaomaximo.blogspot.com/, de Abril 09, dizia que «segundo o ‘Índice Planeta Feliz’ de 2006, da Fundação Nova Economia, com toda a relatividade de uma medição desta natureza, os países ricos do norte da América e Europa apresentam, sem surpresas, os mais altos índices de felicidade (“Muito feliz”). Dinamarca e Suiça encabeçam a lista. Estudos demonstraram uma relação directa entre o nível de educação de uma população e a sua felicidade. Poderiamos intuir aqui, também, uma relação entre riqueza material e felicidade …. No entanto, alguns estados insulares (ilhas das Caraíbas, Malta, Seychelles, ilhas do Pacífico) surgem também entre os 25 primeiros (…) Portugal, de acordo com o Índice referido, surge ‘estranhamente’ com uma população apenas “Satisfeita”, ao lado de países africanos e da Europa de Leste/ex-União Soviética.»
Dada esta aparente contradição, posso pelo menos concluir da relação directa entre educação e felicidade, mas também entre riqueza e educação.
Por sua vez, o novo paradigma do século para a humanidade – “melhorar a qualidade de vida sem destruir o meio ambiente nessa tentativa” -, coloca a tónica nos niveis de poluição. Dessa forma, e como concluimos em recente conversa de amigos, também existe uma relação directa poluição-consumo-riqueza. E assim se chega à triste conclusão de que existe uma relação directa entre felicidade e poluição (felicidade-educação-riqueza-consumo-poluição), que domina e subjuga a sociedade ocidental actual !!! Garrett, por seu lado, concluia: “Mas aqui é que me parece uma incoerência inexplicável. A sociedade é materialista; e a literatura, que é a expressão da sociedade, é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista! Sancho, rei de facto; Quixote, rei de direito.” …