domingo, 16 de setembro de 2012

Crónicas do Algarve... - Crónica 52









Tesouro esquecido:

Na grande figueira sobre a falésia da praia do Camilo, eu e outro homem estamos empoleirados a colher figos. A mulher deste pergunta ingenuamente: “não será crime?”. Crime é deixá-los cair de podres, respondo eu para o ar. Noutra figueira próxima, igualmente bem abastecida, as ramagens tocam o chão e entre elas, muito papel higiénico!
Ou seja, o tesouro que as pessoas descobriram nestas árvores não é o do néctar que ela nos oferece uma vez por ano mas sim o de refúgio para largar as necessidades… (mesmo que depois comprem o quilo a 5 e 6 euros no supermercado)!

 
Costa de Lagos:

Um novo comandante da Polícia Maritima do Barlavento foi empossado há uma semana, em Portimão. Diz ele que vai manter “tudo igual”.

Semanas antes ouvi por interposta pessoa que um oficial da Marinha se referira ao projecto Paraguaçú de travessia oceanica com um desdenhoso: essas coisas “só nos dão é trabalho”. Pois eu também acho que a Marinha custa muito trabalho ao país! Sabe-se muito pouco daquilo que fazem para além do que gastam em manter onerosas frotas e oficiais em excesso com demasiadas regalias.

O que aquele novo comandante no fundo veio dizer foi: “não vou fazer nada”! Pois eu gostaria muito de deitar mão ao caos que vai na costa de Lagos à conta dos barcos turisticos: a primeira medida seria estabelecer cinturas de circulação com distâncias crescentes relativas às zonas de banhistas, de acordo com a potência dos motores e número de pessoas que transportam. Quanto mais barulhentos mais longe das praias…


Pobres e ecológicos:

No final da ponte estava um homem sentado no chão, boné e muletas ao lado, a mendigar. Despreocupado, lançou uns papéis ao rio! Quis intervir, dizendo “não era preciso fazer isso…”, mas imediatamente me detive. Claro que ao pobre homem, preocupado em sobreviver mais um dia, a poluição e o ambiente não o preocupam. Isso deve ser ‘coisa de ricos’, pensará ele. E tem a sua razão! Como queremos educar a nossa população para as questões ambientais se uma considerável fatia está tão justamente preocupada em ‘chegar ao fim do mês’!? O que é que a expressão 'ecologia' ou ‘reciclagem’ pode ter a dizer a alguma destas pessoas?!

Nestes dias de reivindicações ao Governo, os pobres e os ‘conscientes’ clamam por mais justiça e igualdade. Em Lagos vejo um 'iatista' pagar 3 mil euros de reparações sem pestanejar; vejo um veleiro tão bem ornamentado que cada bóia de amarração (e tem umas 10, pelo menos) veste o seu próprio e dispensável ‘jersey’ com um preço unitário que dava para vestir da cabeça aos pés qualquer necessitado não caprichoso; vejo um enorme iate, bem feio por sinal, registado em Lisboa e com o nome de ‘Bandido’ – e não consigo evitar pensar no proprietário… utilizando o mesmo adjectivo!

 
Miragem:

Ao passar no meu barquito a remos frente a uma enseada entre a falésia, vejo na areia um par de nudistas. Nada de mais. Como de costume dou um mergulho em direção à praia. Ao aproximar-me da margem reparo que são duas ‘fêmeas’! Não há mais ninguém! Mas isto ‘é o sonho de qualquer homem’ – exclamaria o Fernando Alvim (e eu também)! O coração bate disparatadamente mais forte à medida que me aproximo a nadar (uma remeniscência do killer instinct primitivo). A expectativa faz mexer os neurónios… mesmo sabendo que nada vai acontecer! Não é assustador tomar consciência que, como concluiu Ranulfo Romo, a imaginação é muito mais potente do que a realidade como motor do nosso prazer!? É como se de uma droga interna se tratasse. Romo relacionou as expectativas, do ponto de vista neurofisiológico, com a maturidade do cérebro e com a felicidade: ele próprio, do que mais gostava não era falar perante auditórios nem escrever os seus artigos mas sim deter-se um instante e viver no interior do seu cérebro para “visitar os amigos… detectar detalhes… recuperar a vida, recreá-la…”. As nudistas, é ‘claro’ que eram estrangeiras (no caso alemãs). Afinal, estamos no Algarve! Miragem sim, mas não tanto!

 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Porque está cara a gasolina? - Crónica 51

Porque é que a gasolina está cara? Simplesmente porque de facto ela ainda é barata para alguns! Explico: a maioria acha que a gasolina está cara e tenta reduzir o seu consumo para poupar, mas para uma minoria o preço daquela é indiferente e como tal continuam a usá-la como se nada se passasse. Mais, esta minoria consome uma exorbitância por pessoa. De tal forma que o seu consumo por pessoa pode igualar o de dezenas de consumidores ‘normais’ ou, o mesmo que centenas ou milhares de habitantes de países subdesenvolvidos de África.

Quando escrevo isto estou a pensar na quantidade de barcos a motor de lazer, de luxo, que se exibem na costa algarvia. Numa feira náutica em que estive presente, em Lisboa, um representante de motores para barco mostrou-me um exemplar que consumia 60 litros por minuto!!!

É para haver combustível suficiente para estes proprietários consumirem que a gasolina está tão cara para a maioria! Para aqueles, continua a ser barata!

Isto será assim até que se implemente um sistema que regule o consumo desnecessário (ou de lazer), atribuindo a cada pessoa a sua quota de consumo indispensável, a preços razoáveis, para além da qual os preços pudessem então subir para se adequar à procura.

Em ‘As Manias da Paula e as Maiores Tolices do Mundo’ (http://www.bubok.pt/livros/4919/As-Manias-da-Paula-e-as-Maiores-Tolices-do-Mundo), defendi que, se vigora uma lógica do utilizador-pagador nas auto-estradas do país, então “quem mais consome um bem escasso comum, ou quem mais polui, mais deve pagar também! A lógica das economias de escala e dos descontos de quantidade tem que ser invertida no caso dos recursos escassos e bens/matérias-primas cuja obtenção/transformação/consumo causa poluição” e, portanto, um dano a terceiros!

terça-feira, 15 de maio de 2012

Crise é crise...! - Crónica 50

Uma senhora escreveu ao presidente Cavaco Silva a dizer que já só tomava banho uma vez por semana!
Pessoas contaram-me que põem a máquina de lavar roupa a funcionar menos vezes e com programas de tempo mais curtos. Contaram-me que em Lisboa já se vê muita gente a almoçar de marmita, dentro do automóvel. Contaram-me também que muita gente aproveita uma boa descida para engatar o ponto-morto e deixar o carro deslizar... Isto para elencar apenas alguns exemplos de novas formas forçadas de poupança.
Não me surpreende! Crise é adaptar-se à escassez!
Nos semáforos arranco devagar, sem esticar as mudanças, para poupar no exorbitante preço do litro de combustível.
O ‘engraçado’ (ironia) é que hoje, ao contrário de há 20 anos, já não compensa viajar de comboio: agora, nos meios de transporte público, outrora acessíveis, temos que pagar os elevadissimos salários de numerosos administradores dispensáveis e os lucros de 2 dígitos definidos nos objectivos de ‘gestão privada’ e requeridos pelos agressivos acionistas...

Comprovei que muitos levam a marmita! (até já vi quem durma no carro, mas sobre isso prefiro não especular). Descobri que muitos conduzem como eu: ponto-morto e arranques suaves!
Mas, ontem fiquei a saber que este tipo de condução irrita alguns, a quem a crise parece não afectar: arrancando devagar o meu pesado veículo num semáforo da marginal (duas vias no mesmo sentido), sái detrás de mim um condutor com uma aceleração de fazer chiar os pneus e deixar fumo no ar, exibindo a potência de cavalos do seu Mercedes imune à crise, como que dizendo “tira essa carripana da minha frente”! Eu não pretendo ter uma viatura veloz e exclamo para mim “não vejo aqui nenhum Ferrari”, ao mesmo tempo que prossigo no meu andamento, entre o possível, devido ao peso, e o poupado, devido ao elevado consumo! Mais adiante ele teve que travar (gastando mais pastilhas) porque na marginal há filas e circula-se devagar!
Um chamamento à razão impõe-se, no entanto. Donos de automóveis alemães, e de outros de alta cilindrada, com nervoso miudinho e pé pesado, não vos exalteis por ter à vossa frente um carro mais lento, ainda que seja uma pesada caravana de 3.500kg...! É que, caso não tenham notado, muitos já esgravatam no fundo dos bolsos para encontrar as moedas que permitem abastecer mais umas gotas de combustível para continuar a circular!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Chouriços e políticos - Crónica 49

As palavras referem-se a temas abordados em ‘As Manias da Paula e as Maiores Tolices do Mundo’ - sinopse e encomendas em http://www.bubok.pt/livros/4919/As-Manias-da-Paula-e-as-Maiores-Tolices-do-Mundo -, não que haja semelhanças, entenda-se!
Os seguintes nomes de políticos, autarcas, empresários, jornalistas, humoristas, etc. são os dos portugueses mencionados neste livro – alguns deles nem sempre pelos melhores motivos...
Alberto João Jardim, Alberto Martins, Álvaro Barreto, Amadeu Garcia, Américo Amorim, Ana Sá Lopes, Ângelo Correia, António Costa Pinto, António Gomes, António José Seguro, António Mendonça, António Mexia, Armando Vara, Bruno Nogueira, Carlos Daniel, Carlos Malato, Carlos Melancia, Carlos Mendes, Carvalho da Silva, Catalina Pestana, Catarina Furtado, Catarina Madeira, Clara Pinto Correia, Clara Ferreira Alves, Daniel Bessa, Daniel Oliveira, Dias Loureiro, Eduardo Prado Coelho, Elisabete Alves, Fátima Felgueiras, Fernando Alves, Fernando Gomes, Fernando Mendes, Fernando Pessoa, Fernão de Magalhães, Ferreira do Amaral, Filipe de Button, Francisco Louça, Henrique Raposo, Herman José, Isabel Tavares, Isaltino Morais, Jerónimo de Sousa, João Baião, João Cravinho, João Marques Vidal, João Pinto e Castro, João Silvestre, Jorge Coelho, Jorge Gabriel, Jorge Viegas Vasconcelos, José Alberto Carvalho, José Eduardo Moniz, José Fragoso, José Rodrigues dos Santos, Judite de Sousa, Luis de Mascarenhas Gaivão, Manel Tavares Silva, Manuel Alegre, Manuel Ferreira Oliveira, Manuela Moura Guedes, Marcelo Rebelo de Sousa, Márcia Galrão, Marinho Pinto, Mário Crespo, Mário Soares, Miguel Macedo, Miguel Portas, Miguel Sousa Tavares, Moita Flores, Nicolau Santos, Nuno da Câmara Pereira, Nuno Markl, Paulo Morais, Paulo Portas, Paulo Rangel, Pedro Afonso, Pedro Barros Costa, Pedro Mexia, Quico Tavares Silva, Rita Silva, Rui Goulão, Rui Pedro Soares, Rui Ramos, Sofia Pinto Coelho, Susana André, Teófilo Santiago, Vale Tudo Azevedo, Valentim Loureiro, Vicente Jorge Silva, Zeinal Bava, Zé Sócrates!
(Chorizo, designa também um ladrão, em espanhol)
Foto: 'Jamón' Ibrérico que de tão velho já tem verdete e cheiro a bafio... publicidade enganosa como... a política!!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

As Manias da Paula e as Maiores Tolices do Mundo - Crónica 48

Trecho do novo livro (sinopse e encomendas: http://www.bubok.pt/livros/4919/As-Manias-da-Paula-e-as-Maiores-Tolices-do-Mundo ):«O Grupo de Lisboa já advertira, nos anos 90, para a necessidade de impor ‘limites à competição’ (o título do livro). Geraint, convencido de que “todas as formas de competitividade derivam de sentimentos de inadequação e insegurança...”, explica (em ‘Cityboy’) como essa mesma competitividade “está a lixar este lindo planeta”. As conclusões das entrevistas de Richard Conniff (em ‘História Natural dos Ricos’), expuseram as estranhas condutas exibicionistas dos detentores de riqueza. A investigação de David Owen, identificou as discapacidades dos decisores. Os relatórios de Malcolm Gladwell (em ‘Tipping Point’) evidenciam como o mal causado por uns poucos pode infligir consequências tremendamente negativas a tantos outros (regra 80/20). Os dados apresentados por Richard Wilkinson e Kate Pickett (em ‘The spirit level’) demonstram claramente o porquê de a ‘igualdade ser melhor para todos’ (o sub-titulo do livro)...
Se nos lembrar-mos da herança das décadas de ditadura paternalista vividas em Portugal e se a todos estes dados somar-mos: a falta de ética dos políticos e o “desenfreado, e abusivo desavergonhado abocanhar do erário público”; a actual “asfixía democrática” (M.F.Leite) e a “contemporização com as ‘faltas’ das altas individualidades” (pelos cidadãos e pela Justiça); a referida sociedade “entranhada e nepótica” que serve a clientelas, e a postura impositiva do ‘eu quero, posso e mando’ que impera no sistema de Justiça (e na Administração Pública em geral), em vez da lógica de serviço ao cidadão (Marinho Pinto, TSF, 14.11.11); aos números que reflectem uma sociedade doentia com baixos níveis de ‘felicidade’, então talvez tenhamos a explicação dos desenvolvimentos que oprimem e tolhem a capacidade de participação dos cidadãos, transformando e descaracterizando o país (que apresenta uma visível falta de mobilização, de iniciativa e até de personalidade – refiro-me à expressividade de um povo reflectida, por exemplo, na alegria das suas manifestações populares, que definem a sua cultura), e o porquê de se estarem a criar as condições “que favorecem uma decadência neuronal colectiva...” (Pedro Afonso)! Isto não é mera especulação. Hoje sabemos que o stress massivo imposto a animais (em experiências com ratos e babuínos) pode afectar inclusive o tamanho de regiões cerebrais como o hipotálamo (envolvido no controle de emoções, actividade sexual, fome, sede, humor, entre outras). Nos humanos há ainda que somar que situações de stress psicológico prolongado não só afectam a sua maturidade como podem causar a sua regressão.
Agora, se quisermos averiguar as consequências da ‘injustiça’ e da ‘infelicidade’ que daqui pode resultar, podemos recorrer a Frederick Douglas (1886) que escreveu: “Onde a justiça é negada, onde a pobreza é forçada, onde a ignorância prevalece e onde qualquer classe que seja é feita para sentir que a sociedade está numa conspiração organizada para oprimir, roubar e degradá-la, nem pessoas nem propriedade estarão seguras”; ou às conclusões de Punset, para quem as pessoas reacionam de forma diversa frente à infelicidade: da “resignação com que se aceita a aniquilação da vontade individual e do pensamento próprio, até à rebelião frente à injustiça”. Em qualquer dos casos, “o preço é muito alto”, seja se se opta por preservar a própria vida, seja se esta é posta em risco para “conseguir quotas de liberdade e de justiça mais amplas”. Também Geraint alega que “este sistema está a destruir o mundo” e as pessoas, e que ao consumir-mos mais e mais e ao criar “maiores disparidades na riqueza” isso “só pode terminar em derramamento de sangue ou em desastre ambiental”.
Insegurança, resignação, aniquilação, rebelião, desastre... , são alternativas demasiado ‘pobres’ no século XIX, não te parece? Isto é muito preocupante!»

Foto: Cheese rolling no Reino Unido (os concursos são um dos temas abordados)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

As Manias da Paula e as Maiores Tolices do Mundo - Crónica 47

Está disponivel o meu novo livro... São 'aventuras' de um tipo muito diferente... Fica um trecho (sinopse e encomendas em: http://www.bubok.pt/livros/4919/As-Manias-da-Paula-e-as-Maiores-Tolices-do-Mundo):
A chuva de “Concursos-relâmpago” nas autarquias de há um ano atrás é apenas uma amostra disso: “Desde Agosto, as câmaras municipais portuguesas, endividadas até aos ossos, já abriram 82 concursos com carácter de urgente, no valor de perto de 100 milhões de euros. Com prazos, em muitos casos, de apresentação de propostas de não mais de 72 horas. Se isto não levanta dúvidas, não sei o que mais pode levantar”.Se bem te percebo, Paula, consideras mesmo que o novo fôlego da luta pelas autonomias se insere neste capítulo dos caprichos...

Paula, deixa-me tentar seguir o teu raciocínio, resumindo algumas das expressões mais ilustrativas que registaste: Seguidores de Freud descreveram os ‘acumuladores de riqueza’ como o «tipo anal», cujo impulso é amontoar dinheiro e bens por causa do seu atrofiado desenvolvimento emocional e de conflitos não resolvidos - Freud argumentara que coleccionar e acumular era um substituto da conquista sexual (Geraint sugere que “o ego de um homem está frequentemente na proporção direta e inversa da sua inteligência”).

“Os ricos conseguem mais açúcar que o resto de nós... E sempre que um animal consiga mais quantidade de um recurso, isto fará mudar a conduta do animal” (Richard Conniff). Glenn Weisfeld, psicólogo da Universidade de Wayne, acrescenta sobre a conduta que, «ser irrespeituosos é precisamente o que fazem os indivíduos dominantes». Os tiques e obsessões desenvolvem-se mais em crianças vítimas de pais autoritários e mães hiper-protectoras. As personalidades de tipo ‘triplo A’ (que consubstanciam aquela conduta) “erosionam a sociedade” (na Alemanha, por exemplo, a percentagem de chico-espertos e ‘triplos A’ é notoriamente inferior à dos países latinos)... Geraint Anderson adianta o exemplo da Goldman Sachs (ou ‘Sucks’ de ‘mete nojo’, como a ela se referiam na City) que revelava uma preferência por aqueles que foram provavelmente vítimas de bullying na escola (segundo alegadas informações de psicólogos ao departamento de RH do banco) - são estes quem mais estão dispostos a trabalhar até às 4 da manhã e aos fins de semana para terminar um trabalho pois estão “desesperados por provar-se a si mesmos”. Estes bancos e correctoras sabem que o sonho de todo o sabichão (‘geek’) vítima de bullying é ganhar suficiente dinheiro para conseguir aquela namorada vistosa e “comprar o Ferrari e depois certificar-se que os seus antigos atormentadores sabem disso” - como quem diz «Agora sou alguém! Sou um vencedor!» -, embora, no fundo, eles saibam que continuam a ser os “mesmos idiotas patéticos por dentro”.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Hipocrisía política e evidências milionárias - Crónica 46

A hipocrisia da classe política chega ao ponto de admitir que um chefe de governo ignore propositadamente um determinado problema, mas logo depois de terminado o seu mandato se constitua como principal interessado na obtenção de proveitos resultantes, precisamente, da exploração da área antes negada! O caso do ex-primeiro ministro de Espanha, Aznar, é elucidativo: durante o período do seu governo pouco ou nada fez pelo ‘Ambiente’ e não acreditava nas ‘alterações climáticas’ provocadas pelo homem. Agora, está à cabeça do instituto que vai gerir os astronómicos fundos governamentais postos à disposição para ‘ajudar a adaptar’ as populações e as regiões às ditas alterações!
A questão colocava-se entre combater as causas, o que implicava fazer frente a poderes económicos de indústrias instaladas, ou tentar minorar os efeitos, ajudando pessoas e países a adaptar-se. Obviamente, a segunda hipótese é muito mais confortável do ponto de vista da não confrontação e do populismo, além de que, mais uma vez, utiliza o manancial de dinheiros públicos da população (resultantes de impostos) para beneficiar projectos privados com reduzido controle de custos (um benefício geralmente maior para quem procede à ‘obra’ do que aquele que resulta para as populações que supostamente pretendem defender)! Numa caricatura no diário espanhol ‘Publico’, Aznar dizia: “Claro que continuo a ser ‘negacionista’, o que acontece é que antes negava as alterações climáticas e agora nego-me a não sacar uma talhada das catástrofes que provoca”!
A chefe de projectos climáticos da Fundação Rockefeller defende que “a prioridade é a adaptação, antes da mitigação”. A secretária de Estado espanhola para as alterações climáticas, Teresa Ribera, contrapõe que esquecer as causas do aquecimento “é hipócrita e não tem pés nem cabeça, porque chegaria um momento em que não poderíamos paliar nada”. É que, os países pobres suportam 99% das mortes associadas às alterações climáticas (um total de 21.000 até Set. de 2010). Há já quem considere que a ‘adaptação’ é um estratagema daquelas multinacionais que pressionam os governos dos países pobres afectados a reclamar verbas para depois as gerirem: a Nicarágua reclama 5,5 milhões para adaptar-se às inundações; a Eritreia pretende investir 6,5 milhões em sistemas de rega; o Paquistão necessita de 7,9 milhões para reduzir o impacto do derretimento dos glaciares do Karakorum. É muito mais ‘fácil’ gerir as verbas do que combater causas e, deste modo, as multinacionais actuam como uma espécie de consultor que faz a intermediação entre os governos necessitados e os cofres dos países ‘ricos’, cobram principescamente e instalam soluções que não garantem nada! Excelente negócio! Porque será que isto me faz lembrar uma história recente, relacionada com o derretimento dos glaciares…?!? (trecho do meu próximo livro: ‘As manias da Paula e as maiores tolices do mundo’)

Vem isto a propósito do nosso primeiro, Passos Coelho, que com paninhos quentes vai pedindo que não hajam conflitos sociais, ao mesmo tempo que realiza pesados (e necessários, diga-se) cortes na despesa pública, à custa do sacrifício sobretudo da classe média, e continuando a não se explicar a carnavalada que vai com os novos administradores da CGD e os projectos de privatização. Note-se que, a dívida pública portuguesa ronda os €160 mil milhões e a privatização de empresas públicas apenas contribuirá com €5,5 milhões para esse déficit (segundo Nicolau Santos do Expresso)!
Acontece que, finalmente, um milionário lúcido teve a coragem de vir a público dizer que é hora de contar com eles, os muito ricos! Warren Buffet, pôs o dedo na ferida ao afirmar que o Congresso norte-americano tem sido muito amigo deles, os multimilionários, e apelou a que o seu governo “deixe de mimar os super-ricos” introduzindo impostos sobre as grandes fortunas.
Quando toda a população vê o óbvio, que só os governantes se recusam a ver, nem que fosse para dar o exemplo, e é preciso virem os mais beneficiados expor esse óbvio com letras garrafais, não podemos deixar de concluir que a vassalagem que os políticos prestam ao poder económico se deve a que tiram partido directo da situação.
Haja mais coragem e honestidade!