segunda-feira, 2 de março de 2009
Valores equivocados !! - Crónica 10
O Presidente da FPF, Gilberto Madail, veio à televisão pedir ‘desculpas’ aos portugueses pela derrota de 6-2 da selecção nacional contra a congénere brasileira. Na selecção inglesa de cricket falou-se de ‘vergonha nacional’ pela derrota a zero com a selecção das West Indies. Jornalistas do canal CNN deram mais de 10 minutos seguidos (fora as repetições) de tempo de antena, chamaram-lhe ‘top story’ e utilizaram expressões como ‘astonishing’ e ‘chocante’ para retratar o despedimento súbito de Luis Filipe Scolari das suas funções de treinador da equipa inglesa de futebol, Chelsea !?!?! Isto não é um exagero ? Trata-se apenas de um jogo. Porque é que se deposita o orgulho nacional num jogo e não na condição de vida das familias desfavorecidas.
Sempre gostei de futebol. De jogar e de assistir a ‘matches’ importantes. Mas recuso-me a discutir futebol. Penso que nenhum desporto deve merecer tanta atenção, ao ponto de entrar em detalhes ridiculos do tipo ‘o Figo constipou-se’ ou ‘Sá Pinto comeu um bife com molho de cogumelos…’. Penso que este desporto, como qualquer outro, não dever receber mais atenção do que outros assuntos sociais mais sérios e importantes, quando há pessoas a viver na miséria e, sobretudo em tempos de crise, quando estas situações se multiplicam e um crescente número de desempregados será forçado a enfrentar desafios de sobrevivência. Tal como muita gente, surpreendo-me com o tempo de antena que o futebol recebe nas televisões. Ou, quando este tema serve de noticia de abertura de qualquer serviço noticioso … Os jornalistas e os responsáveis de programação dos canais televisivos tem responsabilidades elevadas nesta matéria. E a desculpa de que ‘damos o que o público quer receber’, simplesmente não pega! Porque há públicos para tudo e muito público consome e aceita muito do que se lhe dá. Muitas vezes independentemente da qualidade, simplesmente porque é o que há no momento. Se se tratar de um mau filme de cinema ou de um artista musical de qualidade duvidosa, desde que bem promovido na televisão, será geralmente aceite.
Há uns anos, o número de casas de habitação em Portugal representava uma média de 3 casas por habitante. Pense-se no número de pessoas que não tem casa própria para imaginar o número de casas que podem chegar a ter apenas algumas pessoas … !!! Simultâneamente, têem-se ouvido noticias de gastos elevadissimos em bens materiais que não representam mais do que caprichos infantis para quem os adquire e significam a verdadeira vergonha para quem nunca poderá aspirar a ganhar esses valores numa vida e pode chegar a ter dificuldades para pagar uma alimentação adequada. Eis exemplos desses gastos, dos quais estou a reunir uma súmula para um eventual livro, a que chamarei "As maiores tolices do mundo": 200.000 euros - valor gasto no equipamento de uma cozinha por um casal alemão (Jan.09); 1,1 milhões de dólares - valor pago pela aquisição de um quadro de Vladimir Putin (representando uma janela); 14 milhões de dólares - valor pago pela matricula automóvel com o número ‘1’, nos EUA; 155.000 dólares – valor pago por uma familia pelo clone do seu cão Lancelot; 87.000 dólares – valor gasto num tapete pelo CEO da Merryl Linch, banco que faliu e pertence agora ao Bank of America (não admira … !!!). Para não falar do escândalo dos bónus que receberam altos quadros dos bancos e empresas americanas em dificuldades, com dinheiro dos contribuintes … !?!
Se o jornalismo pretende aspirar a ter um papel sério na contribuição para a justiça numa nação, é nos temas sociais que realmente caracterizam uma sociedade que deve investir mais tempo. Investigando, chamando a atenção para situações de pessoas em dificuldades e deixando de retratar algumas excentricidades com deferência submissa, mas salientando o seu lado repulsivo. A bem de valores mais nobres e da justiça social …
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Controversas 'medidas' inglesas - Crónica 9
Mas não era sobre isto que eu queria escrever. Gostaria que a ‘Europa’ formalizasse uma proposta honesta aos britânicos: adoptar o inglês como segunda lingua (obrigatória no sistema de ensino) em todos os países e como lingua oficial nos meios politicos e institucionais da União Europeia, em troca do abandono por parte dos britânicos de vários dos seus simbolos anacrónicos – o pound, a condução automóvel à direita, as temperaturas ‘Farenheit’ - e da sua adopção do sistema métrico. Parece-me justo. Mas, sobretudo, significativamente simplificador das relações países anglófonos versus resto do mundo …
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Mais noticias da Suiça !! - Crónica 8
Realiza-se anualmente com uma participação limitada a 1800 concorrentes (não federados na FIS) e um percurso de 15,8 km, que parte do topo do Schilthorn (2.970m), conhecido por aí se ter desenrolado uma cena do filme de ‘James Bond’, para chegar à vila de Lauterbrunnen. Na primeira edição da ‘Inferno’ (29.01.28), todos os esquiadores partiram ao mesmo tempo, sendo que quem dava a partida era um deles. Aqueles que não se atreviam a descer a primeira secção (hoje uma pista negra), juntavam-se mais abaixo depois dos primeiros passarem. O vencedor foi Harold Mitchell, que percorreu os 12 km em 1h12’ (apenas uma mulher se juntou aos pioneiros – Doreen Elliott, que terminou em 4º lugar). Na linha de chegada encontrava-se um homem, magoado num tornozelo e que por isso não podia correr, registando os tempos e comparando-os com a hora de partida (informada por Sir Arnold, o 6º a chegar), para fazer as contas e definir a classificação. Em 1929 e 30 os ingleses dominaram e após 5 anos de interregno o Club de Ski de Mürren tomou conta da organização (interrompida durante a II Grande Guerra), passando a partida a fazer-se de um-em-um. Em 1967, com a conclusão do teleférico que chega ao topo (na altura o mais longo e moderno do mundo), a prova ganhou novo impulso.
A 24 de Janeiro de 2009, a 66ª edição, os concorrentes partiram em intervalos de 15 segundos (sendo que cerca de 2.000 pretendentes ficaram de fora da corrida por exceder o limite) e o percurso foi reduzido a 9,7 km, devido a condições atmosféricas adversas no cume. Os tempos variaram entre os mais de 10 e os 45 minutos.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Contradições Suiças !?! - Crónica 7
No próximo fim de semana tem lugar em Mürren (do outro lado do vale em relação a Wengen) a famosa corrida popular de ski – a ‘Inferno’ – 15 km non stop (os melhores tempos são de 7 a 10 minutos, o suficiente para deixar as pernas como gelatina). As inscrições estão encerradas desde o verão passado. São 1800 concorrentes amadores (quase 2.000 pretendentes ficaram de fora).
Nas pistas de ski e montanhas do sistema Jungfrau, vivem-se momentos inesqueciveis: dos esquiadores que disfrutam de uma paisagem extraordinária frente aos glaciares património da UNESCO, aos turistas asiáticos (sobretudo do Japão, Corea e Singapura) que, em grandes grupos enchem os pequenos comboios que os elevam ao Jungfraujoch – Top of Europe (a estação mais alta da Europa, a 3.454m), aos menos desportistas que passeiam pelas ruas livres de automóveis de Wengen e Mürren, aos que escolhem o trenó, um desporto nacional para todas as idades (meio desconhecido entre nós), para descer a boa velocidade, de dia ou de noite, os trilhos que circundam a popular vila de Grindelwald.
Tudo isso num mundo de ‘postal’ ou, como alguém disse: “demasiado perfeito para ser verdadeiro”. Sim, é verdadeiro! Mas não é tão perfeito como parece. É verdade que os suiços ‘dominam’ os vales e as montanhas. Que são fervorosos adeptos da ‘segurança’. Mas após algumas semanas por estas paragens saltam à vista as imperfeições e contradições de um sistema tão organizado. Refiro-me, por exemplo, ao caos que por vezes se vive nalgumas estações de comboios (especialmente num dia de competição desportiva, com nenhum horário cumprido) !?! Mal minimizado, verdade seja dita, pela presença de um ‘batalhão’ de assistentes. A falta de pistas de ski de côr verde (as mais fáceis) para o esquiador principiante – esta situação é realmente irónica pois, se por um lado vemos uns 80% de esquiadores a usar capacete, por outro lado vemos que, após aprender os primeiros movimentos, o esquiador principiante tem que ‘saltar’ para uma pista ‘azul’, bastante mais exigente do que uma ‘verde’. Pior ainda, há pistas azuis que terminam em pistas ‘vermelhas’ (pistas para esquiadores avançados). Para quem se orgulha do seu nivel de planeamento e segurança, é também estranho verificar o traçado de algumas pistas, com troços verdadeiramente cegos e mal sinalizados, escondidos por lombas e curvas. Três vezes dei por mim fora de pista sem me ter apercebido. Uma vez voei descontrolado sobre uma cova escondida por uma lomba, ao descer uma pista azul, em velocidade moderada. ‘Não há bela sem senão’ !!!
foto3: salto incrivel na 'Descida' da Lauberhornrennen '09
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
A Vida num Refugio
A Vida num Refugio - Crónica 6
Nada tem a ver com refugiados. Um refugio é uma casa abrigo na montanha e pode ser guardado ou não. No primeiro caso, será pago e terá refeições, wc e cobertores para a dormida em camarata.
Num refugio de alta montanha juntam-se as mais curiosas pessoas e nacionalidades. O ambiente é divertido, trocam-se informações e compartem-se experiências. As pessoas são receptivas e estão unidas por um sentimento e um desejo comuns: disfrutar a montanha e alcançar um determinado cume. Recentemente, estive no refugio Gôuter, no Monte Branco (França), a 3.718 metros de altitude, rodeado de neve. À minha mesa, para jantar, estavam um casal italiano, um norueguês com o seu guia escocês, e 3 franceses. Mas, por exemplo, no dormitório (com 40 colchões para 51 pessoas !?!, segundo as contas das minhas vizinhas inglesas: “they’re noty aren’t they ?!”, exclamou uma), entrou um guia checo, com um grupo de uns 20 excursionistas e havia vários coreanos ...
A ‘tarefa’ mais complicada na alta montanha, seja num refugio ou fora dele, parece ser ir à casa de banho ! Desde logo devido ao frio. Mesmo nos wc dos refugios não é fácil ‘obrar’. Lembro-me de um wc no Monte Rosa (Zermatt), em que a água da sanita estava a metro e meio de profundidade, mas mesmo assim, quando o dejecto embateu na água, o ricochete, em forma de pingos, veio-me acertar em cheio no rabo … Uhh! Desta vez, no Gôuter, a ventania lá fora entrava pelo fundo das sanitas, de baixo para cima (os orificios dão directamente para as rochas). Ao atirar o primeiro papel, verifiquei como este ficou a flutuar no vazio, até ser cuspido de novo para o interior da cabine … Assim, os utilizadores eram forçados a ‘descarregar’ entre rajadas de vento !!! Um erro de cálculo, pode custar as pernas regadas com a própria urina que regressa do vazio, como me aconteceu !
Bom, mas vem tudo isto a propósito de que os refugios de montanha são, posso considerar, dos melhores locais para promover as interculturalidade, a tolerância e a paz no mundo …, uma vez que todos os frequentadores se debatem com as mesmas contingências. Todos se procuram adaptar o melhor possivel para passar solidariamente aqueles momentos, antes de partir de novo para um objectivo individual, mas comum – o cume. Isto fez-me pensar que seria bom que tambem os politicos se pudessem sentar a uma mesma mesa, desta maneira, partilhando objectivos idênticos aos dos demais, sem preocupações materialistas, sem ostentações, sem ensejos de manipular, de conceder e cobrar favores. Decerto teriamos um mundo mais pacífico …
Alguns blogs em que participo:
http://cronicasdozezinho.blogspot.com
http://icecare.blogspot.com (tem novidades)
http://viagenseaventurasl.blogspot.com (tem novidades)
http://aventuraaomaximo.blogspot.com
http://travessiaoceanica.blogspot.com
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Onda de violência - Crónica 5
Se fosse este o caso, muito mais grave, então as questões de injustiça social emergiriam ao primeiro plano e os politicos teriam que responder porque é que, quando um país atravessa uma situação de desaceleração económica ou mesmo de crise, as consequências da mesma não são partilhadas, pelo menos proporcionalmente, por toda a nação. Isto é, como podemos permitir que em situações de crise, uns, muitos, fiquem a viver ‘com a corda no pescoço’ enquanto outros, poucos, apenas tenham (ou não) que ponderar os luxos das suas vidas ?
domingo, 24 de agosto de 2008
Crónica 4
Uma questão de solidariedade
Há uns bons anos atrás, era comum uma pessoa saudar outra que encontrasse a passear na montanha. Era quase um alivio encontrar alguem mais e saber que não estávamos completamente sós e incomunicaveis, naquelas paragens reconditas (pensar que os telemóveis não estavam tão difundidos e que os caminhos de acesso eram lentos). Hoje em dia, o fenómeno adquiriu umas proporções tais que gera situações, no minimo, hilariantes!
Com a facilidade de acessos e com a facilidade de comunicação, uma pessoa que vá passear na montanha, quase não se sente verdadeiramente só. E quem quer procurar um pouco de solidão tem que se embrenhar bem na montanha, para longe de caminhos marcados, pois já aparece gente em todo o lado. O curioso é que a velha saudação na montanha se manteve, ainda que ao cruzarmo-nos com outra pessoa, já não sintamos aquela sensação de alivio, porque sabemos que estamos mais perto da ‘civilização’, estamos mais comunicáveis e, atrás desta pessoa vêm, provávelmente, muitas mais …
Recentemente estive em Andorra e entrei por uns caminhos de montanha que conduziam a uns lagos escondidos … Por estes caminhos que mal chegavam ao quilómetro, cruzei-me com várias pessoas e todas me saudavam … Comecei a suspeitar ! Espera lá, mas ali em baixo no parque de estacionamento não me saudaste ! porque é que me estás a saudar agora ? Eu venho para este lugar bonito à procura de um pouco de calma e distância dos aglomerados populacionais … e, na verdade, dispenso este tipo de saudação que não tem nenhum significado. Estou certo de que se a mesma pessoa me visse a pedir boleia 20 minutos mais tarde, passaria por mim sem se incomodar … Então concluí: esta saudação é apenas um resquício de um hábito antigo e util. Mas hoje em dia, em lugares por onde passam dezenas de pessaos, não tem qualquer utilidade e parece até descabido, para não dizer irritante.
Fez-me recordar uma primeira viagem de mota que fiz em direcção à Suiça: em Espanha respondi à saudação das poucas motas com que me cruzei … em França passava a vida com a mão esquerda levantada, pois os motards eram às centenas !!! Deixei de levantar a mão ! Conclui que não gosto desta saudação classissista … Então e se eu estivesse a viajar numa Zundapp ou Famel 50, aqueles motards em motas potentes tambem me dirigiriam uma saudação ?!? Creio que não !
Hoje, banalizaram-se os passeios na montanha, quase tanto como a condução de motos potentes. A solidariedade é das atitudes humanas que mais me comove, mas a solidariedade de classe, em ‘classes’ tão abrangentes perde o seu sentido, pois a mensagem que estamos a enviar transforma-se em algo estranho como “sou solidário contigo e com os outros 500 mil iguais a nós …”. Sendo assim, não será muito melhor assumir a solidariedade como uma atitude intrinseca das pessoas e ser soldário com toda a gente, independentemente da ‘classe’ ?!?
http://travessiaoceanica.blogspot.com